NOS CINEMAS: Bingo – o Rei das Manhãs

///NOS CINEMAS: Bingo – o Rei das Manhãs

Cinebiografia de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo no programa matinal homônimo exibido pelo SBT durante a década de 1980. Barreto alcançou a fama graças ao personagem, apesar de jamais ser reconhecido pelas pessoas por sempre estar fantasiado. Esta frustração o levou a se envolver com drogas, chegando a utilizar cocaína e crack nos bastidores do programa. Essa é a história de Bingo – o Rei das Manhãs.

Você já leu aqui na VISÃO.ARTE que este foi o filme escolhido pelo Ministério da Cultura e pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa pelo Oscar 2018. Agora vai saber porque o longa merece essa honraria.

Sim, eu era uma criança que me dividia entre Xuxa na Globo, Angélica na Manchete, e Bozo no SBT. As meninas quase bonecas, magras e sempre felizes, eram um ideal de beleza que até hoje não consegui alcançar – e na verdade, desisti. O palhaço usava máscara, e faz parte do mais simples imaginário coletivo. Morando em uma cidade do interior, o circo era sempre a maior atração. Bozo era o circo todos os dias na nossa TV.

Mas foi no início da adolescência que conheci Arlindo Barreto. Filha de pastor evangélico, viajamos pelo Brasil participando de eventos, até que – cabum! – o palhaço tirou a máscara e lá estava um homem com seu testemunho.
Essa é a minha história envolvendo Bozo. Toda criança dos anos 80 deve ter a sua, que aflora diante da telona ao ver Vladimir Brichta tornando-se nosso ídolo adolescente, e desconstruindo-o.

Vladimir Brichta é o nome. Ele é Bingo! Ele nos traz o pai esforçado que se ilude com a fama, o filho cuidadoso e amoroso, o ator que quer um lugar ao sol. Ele desafia os poderosos da “platinada” com a voz no tom certo, um cara-a-cara de quem busca revanche. Olhando para os olhos de Vladimir, logo no início do filme, você sabe que o personagem que ele está desenvolvendo é capaz de tudo – mesmo que você não soubesse a história real.

O personagem foi inicialmente oferecido para Wagner Moura, que por conta de compromissos profissionais no exterior {a série Narcos, da Netflix} teve que recusar. Sorte a nossa! Wagner é um dos nossos maiores atores, mas Bingo era de Vladimir. E o estreante diretor Daniel Rezende soube fazer uma dobradinha perfeita com o ator.
Sintonia é a palavra que une todos os pontos de Bingo – o Rei das Manhãs {por direitos autorais o nome Bozo não pôde ser usado}. O filho {Cauã Martins}, a mãe {Ana Lúcia Torre, em uma interpretação comovente da primeira a última cena}, a ex-mulher {Tainá Muller}, a equipe {destaque para Augusto Madeira}, a diretora do programa {Leandra Leal}. Nesse elenco, Leandra Leal se destaca. Comedida, séria, desafiadora. Ela nos mostra mais uma vertente de seu talento. Nossos aplausos.

A direção de arte, o figurino, a trilha sonora… tudo nos remete aos anos 80. É uma viagem no tempo mágica.

Mágico também é o encontro do ator que quer ser palhaço {Vladimir} com o palhaço-ator que nos deixou. Domingos Montagner. Que emoção em suas cenas! Que lindo vê-lo com a cara pintada e o nariz vermelho, no picadeiro onde ele passou parte de sua vida. Domingos foi galã por pouco tempo e palhaço por quase toda a vida. Sua presença em Bingo – o Rei das Manhãs é emocionante.

{Em tempo: a indicação de Bingo como representante brasileiro na corrida ao Oscar 2018 e o dia que assisti o filme foi o mesmo em que lembrávamos um ano da morte de Montagner. Uma lágrima e um aplauso silenciosos ficaram na poltrona.}

Bingo – o Rei das Manhãs é uma viagem no tempo, é emoção, é imersão do espectador na história da tela, é Vladimir Brichta, é arte.

Nos Cinemas.

Até a próxima,

2017-09-25T03:44:04+00:00 0 Comentários

Sobre o Autor:

Lathife Porto
Meu nome é Lathife Porto, tenho 33 anos, sou jornalista, assessora de imprensa, e apaixonada por arte e cultura. Moro no Rio de Janeiro, estou sempre em Paraty {RJ}, mas você pode me encontrar em qualquer lugar do mundo – principalmente no mundo virtual.

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