Personagem fundamental da cultura brasileira nos últimos 50 anos, autor, dramaturgo e compositor de uma extraordinária coleção de canções que habitam o imaginário coletivo do país, Chico Buarque dialoga com a própria memória neste filme de Miguel Faria Jr. O longa tem como um dos eixos a descoberta do irmão alemão de Chico. “É um artista revisitando a sua própria história do ponto de vista da maturidade”, resume o diretor, que em 2005 assinou o bem-sucedido documentário sobre Vinicius de Moraes, recorde de público. Essa é a história do documentário CHICO – ARTISTA BRASILEIRO, filme de abertura do Festival de Cinema do Rio 2015.

“…

Sábios em vão

Tentarão decifrar

O eco de antigas palavras

Fragmentos de cartas, poemas

Mentiras, retratos

Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não

Que nada é pra já

Amores serão sempre amáveis

Futuros amantes, quiçá

Se amarão sem saber

Com o amor que eu um dia

Deixei pra você”

Se a Futuros Amantes for uma canção profética, os sábios se espantarão ao descobrir um ser acima deles. Ou talvez, se isso acontecer, Chico esteja passeando pelas ruas de Paris, curtindo os netos – ou até bisnetos -, assobiando, compondo, escrevendo, vivendo histórias. Têm-se a impressão de que Chico Buarque de Holanda é imortal.

No documentário dirigido por Miguel Faria Jr. – amigo de longa data de Chico, o que traz ao filme um tom de intimidade; e também autor do aclamado Vinicius – o próprio Vinicius de Moraes diz que a música brasileira seria uma imensa planície, com alguns morros e pouquíssimas montanhas, sem artistas autossuficientes em letra e música, como Caymmi, Noel Rosa e, sim, Chico Buarque. Chico é colocado no posto entre os maiores. E foi assim que meu pai me ensinou.

Desde pequena aprendi a grandeza de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Francis Hime, João Bosco, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão, Elis Regina,…, mas “de todos esses, Chico é o maior”.

Por isso eu, como qualquer espectador, me emocionei com as histórias, as confidências sobre o casamento com Marieta Severo, a busca pelo irmão alemão; e me deliciei com as montanhas que cercam o apartamento onde Chico trabalha. Deslumbrante!

O filme é entrecortado por números musicais históricos e atuais – estes com arranjos de Luiz Cláudio Ramos (diretor musical do artista nos últimos 20 anos), foram feitos no palco da Cidade das Artes, no Rio, não como show mas exclusivamente para as câmeras. Além do próprio Chico, há a participação de intérpretes tradicionais de sua obra, como Ney Matogrosso (As vitrines), embora o filme se concentre em vozes contemporâneas como Moyseis Marques (Mambembe), Laila Garin (Uma canção desnaturada), Monica Salmaso (Mar e lua), Péricles (Estação derradeira), Adriana Calcanhotto e Martnália (Biscate) e a portuguesa Carminho numa surpreendente recriação de Sabiá e, em dueto com Milton Nascimento, Sobre todas as coisas.

Voltando à intimidade do gênio, Chico também se deixa filmar num singelo número musical, a canção Dueto, acompanhando ao violão três dos seus sete netos (Chico Freitas, Clara Buarque e Lia Buarque), numa cena em que o diretor de fotografia Lauro Escorel trata como se fosse um velho filme caseiro, com textura de filme Super 8. Nos sentimos na casa dele ao ver um dos netos mexendo nos armários e procurando algo para comer, e toda aquela sintonia que só pode haver entre os que se amam sem pedestais ou títulos. Para aqueles adolescentes, Chico Buarque era simplesmente “vô” – o que nos faz refletir sobre os que nos cercam.

Poderia passar horas escrevendo sobre Chico. A genialidade da canção que tem como título Eu Te Amo não ter essa declaração em nenhum de seus versos. A Banda, que me pegou à toa pra conquistar pra sempre. A avenida por onde Vai Passar o canto da Liberdade. O mistério da Noite dos Mascarados. E as Vitrines, do apaixonado que “Na galeria, cada clarão / É como um dia depois de outro dia / Abrindo um salão / Passas em exposição / Passas sem ver teu vigia / Catando a poesia / Que entornas no chão”.

Chico Buarque virou cantor, escritor, e personagem de cinema. Talvez mais do que seus pais esperavam. Muito para todos nós, que saímos da sala escura com a sensação de que faltou alguma coisa. Porque Chico é mais! É íntimo! É romântico e revolucionário. É avô e fala diversas línguas. Falta Chico Buarque em Chico – Artista Brasileiro porque aqueles olhos são uma fonte inesgotável.

E que seja um amor compartilhado, uma obra Paratodos sua auto-definição: “O meu pai era paulista / Meu avô, pernambucano / O meu bisavô, mineiro / Meu tataravô, baiano / Vou na estrada há muitos anos / Sou um artista brasileiro.

Chico – Artista brasileiro abre oficialmente o Festival de Cinema do Rio 2015.

Fique ligado na Visão.Arte!

Até a próxima,

Lathife Porto

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Lathife Porto

Meu nome é Lathife Porto, sou comunicadora e apaixonada por moda e beleza {acessórios são vício!}, arte e cultura, decoração, arquitetura, e entretenimento.

Moro no Rio de Janeiro, estou sempre em Paraty {RJ}, mas você pode me encontrar em qualquer lugar do mundo – principalmente no mundo virtual.