Entrevista: o caminho seguro e iluminado de JULIANA SILVEIRA

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Esta é uma entrevista desejada há muitos anos.
Conheci Juliana Silveira pessoalmente logo no início da minha carreira. Sempre nos encontrávamos em eventos, e me encantava sua simpatia.
Além da beleza e do sorriso aberto, Juliana me surpreendeu como profissional: virou estrela infantil na Band, e não tem tido medo de arriscar na Record: na emissora já foi de pop star a neonazista, sem abandonar as clássicas mocinhas. Seus visuais são inspiradores. Quem nunca chegou no salão pedindo “o cabelo daquela atriz linda, a Juliana Silveira”?
Vivendo o sucesso de Kalési, a rainha de Jericó em A Terra Prometida, finalmente conseguimos conversar com ela. O resultado foi um papo iluminado, como a própria atriz.
VISÃO.ARTE: Você começou a trabalhar muito cedo, e passou anos dedicando sua arte às crianças {como assistente de palco da Angélica, e em Floribella}. Quais foram os pontos positivos e negativos disso?
JULIANA SILVEIRA: Comecei a trabalhar com 13 anos, em um ambiente muito harmonioso, gerido por famílias (a emissora era o SBT e na época a empresária da Angélica era a sua irmã). Minha memória é de um lugar divertido… A hora do trabalho era o meu playground. Claro que existiam horários a serem cumpridos e responsabilidades, mas não era algo pesado ou difícil de administrar. A diferença é que tive uma carga horária maior, porque tinha o colégio também, que eu nunca larguei. Essa era a condição estabelecida pelos meus pais para me liberar para trabalhar. A gente gravava duas vezes por semana e sempre nos períodos da tarde e noite. As manhãs eram livres para a escola e os shows, que aconteciam nos finais de semana. Não me arrependo de nada. O trabalho era minha diversão e de lá trago amigos que estão na minha vida até hoje. Criei laços de amizade, aprendi muito sobre televisão, viajei o país inteiro fazendo shows e pude construir uma carreira de forma tranquila. A minha rotina nunca foi igual a das minhas amigas da escola, mas eu sempre achei que a história que eu tinha escolhido pra mim era muito melhor. Eu faria tudo de novo!
V.A: Como mãe de um menino ainda pequeno, você deixaria ele tornar-se um artista mirim também?
JS: Eu deixaria o Bento começar a trabalhar, se isso fosse um desejo dele. Com algumas condições: que ele soubesse ler o seu próprio texto, que não abandonasse a escola (os estudos são prioridade) e se ele estivesse feliz com a sua escolha. Já conversamos uma vez sobre isso… Levei o Bento em uma gravação e ele saiu muito curioso, fazendo várias perguntas. A última foi: “Mamãe, eu posso ser um "ator-criança?” Achei muito engraçada a pergunta e disse que ele poderia tentar o dia em que já soubesse ler e interpretar o seu próprio texto. Ele ainda não foi alfabetizado, está com 5 anos e já mudou de ideia. Depois das Olimpíadas disse que quer ser atleta. Ele ainda tem muito tempo para decidir o que vai querer experimentar profissionalmente.
V.A: Sua relação com Angélica e a família dela é uma das mais longas do meio artístico brasileiro, passando pelo lado profissional. Em um meio tido como de egos inflados, como construir relações assim?
JS: Eu acho que qualquer relação longa passa pelo amor, respeito e admiração. Essa "tríade" serve para ambientes profissionais e pessoais. Claro que, às vezes, em uma equipe grande vão existir pessoas que você gosta e outras que você não tem tanta intimidade. O grande barato é aprender a trabalhar bem com todo mundo, mas a Angélica e a Márcia foram amores à primeira vista. Acredito em destino e em outras vidas. E não acho que foi um golpe de sorte ter sido escolhida na plateia do programa para trabalhar com elas. Acredito que "estava escrito" para ser assim. Tenho um amor gigantesco pelas duas e por suas famílias. Admiro e confio muito na Márcia, que é minha empresária desde sempre e adoro ser testemunha da vida pessoal e profissional da Angélica. Ela entende absolutamente tudo de televisão e se transformou em uma mãe extremamente dedicada e amorosa. 
V.A: Depois de algumas participações na Rede Globo você foi elevada a pop star como Floribella. Faria tudo de novo ou investiria em uma carreira na “Vênus platinada”?
JS: Eu faria tudo de novo! Floribella foi uma das melhores coisas que me aconteceram profissionalmente! Tenho muito carinho por toda a minha trajetória profissional e por todas as emissoras em que trabalhei. Sei que a minha carreira foi construída com calma, estudo, dedicação, persistência e um pouco de ousadia, por que não? Afinal, fazer novela infantil na emissora do esporte (Band) tinha tudo pra dar errado e deu muito certo. Como não amar essa escolha depois de 10 anos? Quando vejo Floribella no Netflix, vejo que tomei a decisão correta de preservar essa história com o público infantil. Acredito muito na minha intuição e não tenho pressa. Também não desisto do que eu acredito.
V.A: No teatro você também focou no universo infanto-juvenil em “Férias de Verão”, “Teen Lover – Confissões Masculinas”, “Cinderela” e “Floribella: o musical”. Sente falta de atuar nos palcos? Tem algum projeto nesse sentido? Qual a personagem teatral dos seus sonhos?
JS: Quando vou ao teatro assistir uma peça incrível, fico me imaginando no lugar da atriz! É engraçada essa sensação (risos). Existem momentos inesquecíveis como assistir a Fernanda Montenegro vivendo Simone de Beauvoir, a Fernanda Torres, na Casa dos Budas Ditosos, ou a Clarice Niskier com a Alma Imoral. Não sei explicar muito bem o porquê de não ter uma longa história com o teatro. Sou uma cria da televisão, comecei aos 13 anos fazendo linha de show e dizia que não queria ser atriz. A vida foi mais forte neste sentido e me encaminhou para a teledramaturgia e eu abracei essa trajetória. Fui aprendendo a ser atriz, a fazer televisão, e amo muito o veículo. Tudo tem o seu tempo. Pode ser que um dia eu comece uma bela história no teatro ou faça como a Glória Pires e acabe ficando com as telas. Vou deixando a vida e as necessidades me guiarem.
  
V.A: Sua estreia na Record também foi como uma pop star, em Luz do Sol. Você, Juliana, gosta desse mundo de música, turnês, e glamour?
JS: Eu amo o universo da música, dos shows, mas nunca me senti segura e pronta para embarcar em uma história como cantora. O projeto da Floribella tinha uma parte musical forte, mas a base era toda na dramaturgia. Sou afinada, tenho um "bom ouvido", como dizia nosso produtor musical, Rick Bonadio. Em Luz do Sol eu sentei e criei a letra da música da personagem em inglês. O Kelpo (produtor musical) me mandou a base da música e eu ouvia no carro. Um dia, andando pela Avenida das Américas veio a letra inteirinha e eu comecei a cantar. Tive que parar o carro para poder anotar tudo e não perder esse momento de inspiração. 
V.A: Na Record você viveu diversas protagonistas, mas seus últimos personagens tiveram um lado sombrio. A pergunta que todos fazem: é mais fácil ser a mocinha ou a vilã?
JS: Acho mais fácil agradar o público como vilã. Na história do antagonista não existem limites para o autor e isso acontece também com o ator, que tem mais escolhas e liberdade na hora de fazer uma cena. A mocinha de telenovela é quase um ser angélico (risos)! Existe o perigo de você ficar chata durante os longos meses que duram uma novela. Você precisa ser criativa na hora de pensar caminhos para uma cena, sempre com o objetivo de surpreender o diretor, o autor e o público.
V.A: Em Vitória você interpretou uma personagem muito polêmica, que praticava o neonazismo, usando uma escola para isso. Infelizmente essa é uma realidade que se alastra mundialmente. Como foi viver essa mulher? Depois de tantos trabalhos para crianças, você recebeu algum tipo de aversão do público?
JS: Começar a entender a Priscila e dar vida à essa personagem foi intenso e assustador em alguns momentos. Acredito que as cenas me tocavam especialmente por ser um assunto tão atual e tão próximo da gente. Durante a novela aconteceram vários episódios na imprensa e a gente lá, "vivendo" essa situação durante as cenas, na ficção. O que aconteceu foi que na hora da pesquisa, o público disse que sabia da importância do tema e da necessidade de discuti-lo. Acabamos virando antagonistas clássicos de novela, que se opõem a um personagem ou situação. E acho que foi um caminho correto, em respeito à audiência.
V.A: Ao longo da carreira você teve diversos tons de cabelos, sempre loiros. Inclusive lançou moda, como no curto estiloso de Carolina, de Chamas da Vida. Considera-se uma camaleoa?
JS: Você pode me considerar uma camaleoa, mas eu acho que eu sou apenas uma atriz se disponibilizando para as necessidades de um papel. Não sou muito vaidosa e não acho que toda personagem tem que ser linda, loira e magérrima! Sempre existe uma conversa com a equipe e gosto muito de ousar e fazer o que a direção e o autor pensam ser o melhor para aquela história.
V.A: É claro que vamos falar do impacto de Juliana Silveira ruiva. Você aceitou bem essa transformação? Teve algum impacto no seu dia-a-dia, na forma de se vestir?
JS: Na verdade eu pedi para a Kalési ser ruiva e precisei esperar o ok da direção e do autor. Quando comecei a fazer as minhas pesquisas de visual para a personagem, achei muitas pinturas e fotos de sacerdotisas e rainhas com o cabelo vermelho. Sem dúvida alguma o elemento da Kalési é o fogo. Olhando para o resultado final, tenho a certeza de que fizemos a escolha perfeita para a Rainha das Serpentes. Mudar o cabelo sempre tem impacto nas escolhas de roupa no dia a dia. A gente precisa se entender com a nova cor de cabelo e descobrir o que fica bonito e o que favorece com o cabelo ruivo. Tons de verde, vermelho, dourado, bege, branco e preto ficam lindos. É uma cor mais clássica, não é tão solar. Eu me adaptei superbem.
V.A: Você disse em entrevistas que Kalési foi seu principal desafio profissional. É verdade? Por que?
JS: Novela bíblica dá muito trabalho e tem uma forma diferente de realização. Você não pode improvisar, o texto é longo e difícil de decorar. A época é outra, existem regras que não podem ser esquecidas durante uma cena, como modo de comer, de sentar, de se vestir… Como uma rainha se portava e se relacionava com as outras pessoas? Não podemos esquecer que estamos falando de uma Rainha de 1200 anos A.C. Como não amar uma oportunidade dessas? Sabia de todos os desafios que eu tinha pela frente ao aceitar fazer a Kalési e sabia que eu tinha uma grande personagem nas mãos. A gente sempre sabe, quando lê o texto pela primeira vez. Estava tudo ali, sinalizado pelo autor Renato Modesto e os seus colaboradores. Me dediquei muito e contei com a ajuda dos nossos diretores, dos figurinistas, da equipe de cabelo e maquiagem e dos meus colegas de cena para criar a personagem. Me diverti muito no processo e mesmo com medo de cobra, consegui superar essa barreira e fazer as minhas cenas com o réptil. Acho que por isso tudo considero a Kalési a personagem mais difícil da minha carreira até agora.
V.A: Pra você, a rainha de Jericó era uma vilã ou uma mulher criada com valores distorcidos?
JS: Pra mim a Kalési é uma mulher que ama o poder e vive para mantê-lo. Ela é uma mulher egoísta e muito inteligente. Dominava o jogo do poder e era uma estrategista. O que a tornava uma vilã era a sua falta de limites e de empatia pelo outro. Ela não sentia amor nem pelo marido. Ele era apenas uma peça necessária para que ela pudesse reinar. 
V.A: Seu figurino e apetrechos de cena eram detalhistas e fantásticos. O que foi mais difícil?
JS: O figurino de Kalési era um show a parte. Foi todo criado, desenhado e costurado na Record pelo nosso figurinista Severo Luzardo e a sua equipe. A base dos vestidos eram leves, sempre em tons escuros, preto ou verde, para passar o lado sombrio, vindo das trevas.Os tecidos eram cetim ou o veludo. E os acessórios de ombro e de cabeça foram todos feitos por uma equipe especializada, em tons de ouro. A gente dizia que a Kalési era uma rainha dourada. Na hora de se vestir, sempre tinha algo para ser costurado no próprio corpo. Era um figurino luxuoso, cheio de detalhes, dignos de uma Rainha poderosa.
V.A: Como era o clima no Reino de Jericó? E como foi participar de sua primeira novela bíblica?
JS: Eu amei fazer A Terra Prometida. Por todos os novos desafios e experiências vividas neste trabalho. Por ter tido a oportunidade de trabalhar com uma equipe extremamente talentosa e amorosa, sempre pronta para nos ajudar. Por ter tido a sorte de trabalhar com um núcleo cheio de atores disciplinados, cheios de gás, talento, boas ideias para as cenas e extremamente divertido. A gente dizia que "Jericó rocks "e esse era o espírito do núcleo.
V.A: Graças a novela você e Igor Rickli {o “rei de Jericó”} viajaram para divulgar o trabalho no exterior. Como foi a recepção?
JS: Chegamos em Angola para lançar a novela e fomos surpreendidos por um povo caloroso, que ama as nossas novelas e que acompanha a nossa trajetória na televisão. É uma delícia poder contar uma história que tem a oportunidade de cativar diversos públicos e países. Acho genial esse caminho que a Record vem percorrendo com as suas novelas bíblicas e estou muito feliz de participar deste momento importante para a emissora e para a teledramaturgia brasileira.
V.A: Além de curtir o casamento e o filhote, quais são seus planos?
JS: Gosto de ter um tempo para a minha família e estou à disposição da emissora para divulgar a novela A Terra Prometida em outros países e o filme que vem por aí. Em time que está ganhando, a gente não mexe. Como diria Gilberto Gil, "andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar". Com fé, caminhamos para um lindo 2017!
Hora do nosso 3X4:
Trabalhar com crianças: é o céu! Melhor público… O mais fiel, verdadeiro e carinhoso.
Gravaria um novo CD… Não faço planos e nunca digo nunca. Quem sabe?
Record: onde eu pude me reinventar como atriz.
Kalési: Poder.
Perfume: da cabeça do Bento, depois do banho. É o melhor cheiro do mundo!!!
João e Bento: eles são a minha base, minha família, meu templo, meu amor.
Luz.
É isso que Juliana Silveira transmite.
Curiosamente, uma semana antes da publicação dessa entrevista, nos encontramos por acaso – e conheci o Bento. Em poucos minutos vi nos olhos dela a paixão pelo desafio da Kalési, a certeza de um caminho bem trilhado, e a mesma simpatia dos primeiros encontros. Em uma de suas mãos, o melhor de sua vida: Bento inspira a mãe que, como vocês leram, sabe viver o tempo certo sem perder as oportunidades.
Obrigada pela entrevista, Juliana. Parabéns não só pela beleza, mas pela entrega à arte: uma verdadeira artista disposta a se desafiar – e a surpreender o público.
Desejo toda a sorte do mundo, deixo meus aplausos, e nosso site à sua disposição.

E espero que você, leitor querido, tenha gostado desse papo tanto quanto eu.

Agradecimentos: Mattoni Comunicação.
Fotos posadas: Pino Gomes.
Até a próxima,
2017-01-20T12:41:00+00:00 0 Comentários

Sobre o Autor:

Lathife Porto
Meu nome é Lathife Porto, tenho 34 anos, sou jornalista, assessora de imprensa, e apaixonada por arte e cultura. Moro no Rio de Janeiro, estou sempre em Paraty {RJ}, mas você pode me encontrar em qualquer lugar do mundo – principalmente no mundo virtual.

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